Inventário do Intermédio

"Eu não sou eu nem sou o outro. Sou qualquer coisa de intermédio. Pilar da ponte de tédio. Que vai de mim para o outro."

Mário de Sá-Carneiro.

 

Recentemente tenho feito inventários dos meus furtos. Sempre furtei mentalmente (para fins de coisa nenhuma) conversas de gente que não conheço sobre assuntos que não me dizem respeito, mas que me tiram do limbo em que geralmente fico quando estou em salas de espera.

Antes só prestava atenção e me punha a imaginar as coisas ditas, me apropriando delas para passar o tempo com essas narrativas descartáveis. Mas há agora anoto trechos dessas conversas furtadas em blocos de notas (materiais e digitais), e faço com alguns deles uma espécie de tradução imagética, através de desenhos, pinturas, fotografias e objetos.

Produzo esses itens a partir de referências também apropriadas por aí: imagens encontradas nas redes sociais, fotografadas nas ruas, recortadas de livros, emprestadas de pertences alheios. Esse é outro dos meus inventários. Me torno, assim, o intermédio: Trago o mundo dos outros para o meu e devolvo para outros outros.

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