Nus

Em um tempo em  que a exposição de nossos corpos e de nossas vidas tornou-se tão comum e aceitável, ainda há lugar para segredos? Partindo dessa pergunta, venho colecionando há três anos pequenos textos secretos, que peço para que as mais diferentes pessoas escrevam anonimamente e depositem numa caixa lacrada. É um convite para que cada um escreva sua confissão mais íntima, aquela que o faz sentir-se nu, ainda mais nu e cru do que se estivesse sem suas roupas.

Nenhum dos textos foi assinado e nem mesmo eu sei quem escreveu qualquer deles. Essa certeza do anonimato, aliada à nossa vontade de compatilhar mesmo aquilo que é absolutamente particular, resultou numa coletânea de retratos dos recônditos mais obscuros das vidas dessas pessoas.

Lotada a caixa, com mais de 100 textos, fez-se a primeira montagem da instalação no MARCO - MS, em dezembro de 2010. O painel de retratos teve continuidade no banheiro , onde as molduras estavam em branco, convidando o visitante a também desnudar-se e participar ativamente da obra com sua confissão anônima. 

Após terminada a exposição, todos os retratos foram retirados e propõe-se que a obra torne-se maior a cada montagem com o acréscimo do material coletado nos banheiros.  Assim, a proposta inclui sempre, além do grande painel de segredo, também a colocação, nos banheiros masculino e feminino, de molduras sem vidro onde o público possa participar dessa obra aberta com suas pequenas ou grandes confissões.

Impossível não chocar-se com alguns textos, sentir compaixão por outros ou achar graça de outros mais. Mas impossível mesmo é não identificar-se com o lado escuso da natureza humana ou mesmo não reconfortar-se com a ideia de que, nus, todos temos do que nos envergonhar. 

 

Priscilla Pessoa

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